Cuidado: Curar, des-velar, re-velar

O grande escritor brasileiro João Guimarães Rosa disse ser preciso “pedir esmola às palavras” para dizer a verdade. A teologia e a mística sempre se propuseram a fazer isso, usando o conceito de contemplação. Palavras são contempladas para deixá-las revelar a verdade que buscamos.

Considerar atentamente uma palavra é como um exercício espiritual que nos permite atingir mais profundamente a verdade de um conceito e o que ele expressa. A palavra “cuidado” é entendida como o sentimento do Espírito inquieto por algo ou alguém. O cuidado é, portanto, o ato de preservar, conservar, assistir. Cuidar envolve ajudar a si mesmo ou a outro ser vivo, tentando aumentar seu bem-estar e evitando que ele ou ela seja mal utilizado ou abusado.

Mas “cuidado” também é definido como “diligência”, “vigilância” “des-velo”. De forma especial, este último sinônimo é mais importante que os outros, porque vai levar-nos a regiões mais distantes e mais profundas, mostrando o alcance verdadeiramente espiritual do cuidado.

Mas, primeiro, vamos olhar para a etimologia da palavra “cuidado”. Os dicionários gerais e enciclopédias definem cuidados relacionando à saúde física, bem-estar, preservando energia e força física. Isso, obviamente, é uma definição importante, mas não o bastante em sua essência e o que nós queremos aqui na configuração de uma espiritualidade do cuidado, ou se relacionam espiritualidade e cuidado.

A palavra cuidado vem do latim e o seu significado primário é cura. Cura expressa a atitude de cuidado, insônia, preocupação e interesse para com o objeto ou pessoa amada. É cogitar e pensar sobre o outro, colocar a atenção e prioridade sobre ele, mostrar interesse por ele e revelar uma atitude de vigilância e preocupação com sua alteridade e suas fragilidades.

Cuidado só passa a existir quando a existência de algo ou alguém é importante para mim. É então que me dedico a ele ou a ela, estou pronto a participar de seu destino, suas lutas e desejos, suas dores e suas conquistas. Em suma, de sua vida. Isso revela que o cuidado não é uma atitude curativa momentânea, de algo definido como doença ou mal-estar, que vai durar enquanto permanece o problema, cessando quando este está curado ou resolvido. Pois cuidado é uma atitude permanente. E aqui vem a palavra desvelo, em seguida ajudando a criar uma verdadeira espiritualidade do cuidado.

Cuidado é incessante atitude vital, é vigilância, aplicação, diligência, zelo, atenção, carinho. Implica um modo de ser e existir pelo qual a pessoa sai de si, descentra-se e concentra-se no outro com vigilância e aplicação permanentes. Isso necessariamente engendra um compromisso que traz preocupação, perturbação e senso de responsabilidade para com os outros.

As mães são um bom exemplo desta atitude permanente de cuidado-desvelo. Sabemos que a persistência dessas mulheres quando seus filhos são mortos na guerra às drogas chega ao ponto em que vão negociar com traficantes e bandidos, a fim de receber de volta os restos do filho morto, a fim de enterrar e chorar seu corpo com dignidade. Também quem é mãe já experimentou quão larga é a noite em que se espera que um filho ou filha volte da rua, até o momento de alívio e descanso quando a chave roda na fechadura e sabe-se que ele ou ela chegou em segurança e está em casa. É um desvelo literal: a pessoa se des-vela, não consegue dormir, incapaz de desligar-se daquilo que é o assunto do seu cuidado.

Afirma Leonarod Boff que cuidado, por sua natureza, inclui dois significados fundamentais, intimamente interligados. O primeiro indica a atitude de vigilância, aplicação e cuidar uns dos outros. O segundo nasceu desta primeira: inquietude, preocupação por outro, porque nos sentimos emocionalmente envolvidos e ligados a outra pessoa.

O grande poeta latino Horácio, que viveu em 68 aC, observava: “Cuidar é o companheiro constante do homem.” Em outras palavras, o cuidado está sempre presente na vida humana, porque – se somos verdadeiramente humanos – nunca paramos de amar alguém e desvelar-nos por ele ou por ela. Também não deixamos de preocupar-nos por ela e seu bem-estar. Se assim não fosse, não estariamos envolvidos com ele ou ela, responsáveis por ele ou ela. Seriamos negligentes e irresponsáveis por sua vida e seu destino. Indiferentes, e assim viveríamos a morte do amor … e também de nossa humanidade.

O cuidado é, portanto, constitutivo de nossa natureza humana. Mas também nos mostra um outro aspecto, tão importante ou mais do que esse, e que a teologia descobre, sendo como é, a inteligencia da fé. Ser capaz de se importar tanto a ponto de desassossegar-se, sofrer, sacrificar-se, desvelar-se por alguém é uma prova da nossa condição de seres criados à imagem e semelhança de Deus, o Criador. E, portanto, plenamente humanos e capazes de auto-transcendência e de refletir o divino.
Cuidado é, pois, além de des-velo, re-velação. É o levantar do véu de nossa identidade e do Mistério do Deus que nos habita, cuidador desvelado cujo coração é afetado pela felicidade e segurança das criaturas nascidas de seu amoroso coração.

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Maria Clara Bingemer
Bachiller en Comunicación Social y en Teología por la Pontifícia Universidades Católica do Rio de Janeiro. Doctora en Teología por la Pontificia Università Gregoriana. Post-Doct en Leuven. Profesora de Teología en la Pontifícia Universidades Católica do Rio. Actualmente se dedica a investigar sobre mística y testimonio en el siglo XX, la experiencia de Dios en el contexto de la secularización y la diversidad religiosa y cultural contemporánea.