Humildade: uma virtude com má reputação

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A humildade é uma virtude incontestável, que anda meio esquecida, mas se faz sempre mais necessária.  O cristianismo fez dela uma das mais importantes virtudes, condição mesma para viver sua proposta. Pois para reconhecer a majestade e a infinitude de Deus e reconhecer-se criatura finita, pobre e limitada, é preciso ser humilde, ou seja, ter noção exata da própria  envergadura e dos próprios condicionamentos.

Realmente, o que vem a humildade, com seu conteúdo de verdade e modéstia, de simplicidade e verdade, fazer num mundo que canoniza o poder, que vive de aparências, supervaloriza o ter em detrimento do ser e constrói a cada minuto ídolos e fetiches que o possam guindar sempre mais alto nas escalas social e profissional, à frente, nunca atrás, ainda que seja usando os outros para conseguir seu intento?

Uma pessoa humilde é malvista em nossa sociedade.  Dela diz-se que não tem ambição nem garra, é fraca de personalidade, que não sabe se impor.  Mais: é tida como boba, idiota, que não sabe aproveitar as oportunidades e chances que a vida lhe dá e se deixa ultrapassar pelos outros.  Não se apega às conquistas conseguidas, não se agarra ao prestígio e ao poder dela emanados, mas deles se afasta, deixando o caminho livre para os adversários e concorrentes.

Apesar de o Cristianismo raramente ter sido considerado uma religião humilde, quase sempre associado à arrogância religiosa e ao triunfalismo, e com uma confiança absoluta na verdade superior de seus próprios ensinamentos, a virtude da humildade desempenhou papel central na tradição cristã desde suas origens.

Santo Antão a ela se refere como “a primeira de todas as virtudes” e, para Santo Agostinho, consiste na “soma total do remédio que nos cura”. Dentro da tradição monástica do Ocidente, o caminho de subida para Deus foi desenvolvido em termos de doze degraus de humildade.  E sua importância é tema central na reflexão e nos escritos da maioria dos místicos cristãos, desde Gregório o Grande até o anônimo autor inglês da “Nuvem do não saber” do século XIV; passando pela grande mística carmelita Teresa de Ávila e por João da Cruz até os diálogos espirituais entre Francisco de Sales e Joana de Chantal.

Mesmo em tempos em que a importância da humildade possa ter parecido ser virtualmente eclipsada pelo triunfalismo e o poder eclesiástico, continuou a encontrar seu lugar central e inequívoco na obra de grandes teólogos como Tomás de Aquino e fundadores e espirituais do porte de Inácio de Loyola, que propõe em seus Exercícios Espirituais levar o retirante ao terceiro grau de humildade, desejando antes a pobreza e a loucura por Cristo do que o prestígio que o mundo dá.

E embora a noção de humildade tenha sido olhada como profundamente oposta à ênfase moderna na autonomia humana e na excelência individual, ainda figura com proeminência nos escritos de autores espirituais mais contemporâneos como Simone Weil, Emmanuel Mounier e Jean-Louis Chrétien.  Este último chega a afirmar: “É bonito que a mais profunda das virtudes tenha uma reputação tão negativa. “

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Maria Clara Bingemer
Bachiller en Comunicación Social y en Teología por la Pontifícia Universidades Católica do Rio de Janeiro. Doctora en Teología por la Pontificia Università Gregoriana. Post-Doct en Leuven. Profesora de Teología en la Pontifícia Universidades Católica do Rio. Actualmente se dedica a investigar sobre mística y testimonio en el siglo XX, la experiencia de Dios en el contexto de la secularización y la diversidad religiosa y cultural contemporánea.