O Pacto das Catacumbas

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Faz 50 anos que, com o Concilio Vaticano II chegando já ao seu fim, 40 bispos latino-americanos, na sua maioria, se reuniram na catacumba de Santa Domitila, em Roma, para fazer um pacto.  Tratava-se de um compromisso de vida de todos eles – chamado O Pacto das Catacumbas – e marcou o início de uma nova espiritualidade entendida como um novo modo de ser Igreja e viver o Evangelho em meio aos pobres.

No texto assinado pelos bispos existem vários elementos que dizem respeito à conversão pessoal para uma mudança nos aspectos pessoais da vida de cada um. O que representou esta conversão?

Primeiro, um “ser como o povo”. Em outras palavras, ser tão humano quanto possível, semelhante e próximo de todos os irmãos e irmãs na humanidade, de uma forma estreita e fraterna. Assim, de acordo com os signatários do pacto, por exemplo, o episcopado deve deixar de ser uma dignidade que afasta e exige elementos de conforto e luxo,  para ter a vida simples e humilde de um servo dos outros.

É isso o que é claramente indicado logo no começo do texto, quando diz que seus signatários irão se esforçar para viver de acordo com o modo ordinário da nossa população   a respeito de moradia, alimentação, meios de transporte, e, portanto, tudo que daí deriva. Trata-se de uma decisão de mudança radical de estilo de vida.  Há que sair dos palácios episcopais e ir viver em uma casa simples, como a maioria das pessoas; deixar para trás as refeições finas e elegantes, para alimenta-se como a grande maioria das pessoas; utilizar o transporte público em vez de carros particulares.

Cada parágrafo implica uma decisão forte e profunda que realmente leva a vida em outra direção.  E há muitos outros detalhes em outros pontos do pacto destinados a que a conversão radical e a experiência nas profundezas de cada um dos signatários conduzam a uma espiritualidade evangélica de estar perto e viver como os pobres.

Por exemplo, a renúncia não vem apenas com relação à posse de propriedade, mas até mesmo com respeito à aparência de riqueza no vestir, nos símbolos utilizados (como cruz peitoral, báculo, mitra). Isso significa que o bispo não deverá ser uma figura que impõe por sua aparência, mas que se confunde com as pessoas comuns. Nesse sentido, os bispos se sentem chamados a ser como os primeiros apóstolos, de quem são sucessores, e não têm “nem ouro nem prata”, mas apenas a Jesus de Nazaré como prêmio e ornamento.

Com relação à posse de bens, o pacto estabelece expressamente que os seus signatários não herdarão propriedades “móveis ou imóveis” e não deverão possuir nada, como os pobres de seu povo, que não têm onde reclinar a cabeça e são forçados, às vezes, a erguer casas pobres com suas próprias mãos, para depois vê-las serem destruídas por chuvas torrenciais, inundações, incêndios, tempestades ou outros desastres.

O pacto coloca os bispos também longe do sistema financeiro capitalista, já que declaram querer abrir mão das próprias contas bancárias e tudo o que daí deriva: crédito, dinheiro fácil, cartão de crédito etc. Em suma, tudo o que dá segurança em um sistema que valoriza o dinheiro acima de todas as coisas e os pobres jamais podem alcançar. No entanto, realisticamente entendem que às vezes deverão lidar com a posse de algum bem. Mas nada é em nome próprio; ao contrário, tudo em nome da diocese ou obras sociais ou de caridade.

Em apoio a esta decisão de viver na contramão do mundo e do sistema em que estão inseridos, citam os textos bíblicos de Mt 6, 19 e Lucas 12, 33s que não recomendam ajuntar tesouros aqui na terra, pois se estará exposto à ação predatória do tempo e ladrões. É melhor vender o que se tem e dar em esmolas. O tesouro de um discípulo e apóstolo de Jesus Cristo deve estar no céu, no Reino do Pai. Só então não vai ser corroído ou destruído. Ou tem que ser dado, doado para quem precisa, e assim estar no lugar onde Deus quer. Onde está o tesouro, lá também estará o coração, e o coração de um pastor tem que estar com suas ovelhas, sensível às suas necessidades e pedidos para encontrá-los e satisfazê-los.

Em seguida, vem tudo o que diz respeito ao prestígio e honras que um bispo é quase sempre obrigado a receber.  Entre os quais os títulos que a Igreja naqueles 20 séculos se acostumou a dar àqueles que têm alguma função eclesiástica. Vale a pena ler por extenso as inspiradoras palavras que os bispos usam para essas resoluções:

  1. Rejeitamos que verbalmente ou por escrito nos chamem por nomes e títulos que expressam grandeza e poder (Eminência, Excelência, Monsenhor …). Nós preferimos ser chamados com o nome evangélico de “padre” (pai).
  1. Em nosso comportamento e relações sociais, evitar qualquer coisa que possa parecer concessão de privilégios, precedência ou preferência para os ricos e poderosos (por exemplo, banquetes oferecidos ou aceitos nos serviços religiosos).

Sementes plantadas dão novos frutos, novos fertilizantes. A orientação do Papa Francisco, neste primeiro ano como sucessor de Pedro, certamente sinaliza uma grande alegria no prosseguimento dos sonhos de Dom Helder e dos outros signatários do Papa antes do Concílio Vaticano II.  Tudo isso encontramos comprovado em sua exortação “A alegria do Evangelho”. Mas também em seus gestos procurando a cicatrização de feridas e em seus trabalhos resgatando aspectos fundamentais esquecidos do Vaticano II.  Tudo isso permite esperar que se vá gestando uma igreja servidora do mundo, com um vínculo indissolúvel com os pobres, e um convite constante a viver a pobreza evangélica.

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Maria Clara Bingemer
Bachiller en Comunicación Social y en Teología por la Pontifícia Universidades Católica do Rio de Janeiro. Doctora en Teología por la Pontificia Università Gregoriana. Post-Doct en Leuven. Profesora de Teología en la Pontifícia Universidades Católica do Rio. Actualmente se dedica a investigar sobre mística y testimonio en el siglo XX, la experiencia de Dios en el contexto de la secularización y la diversidad religiosa y cultural contemporánea.